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Material escolar: O pai deve ceder e comprar os materiais que o filho escolher? - Por Içami Tiba



Pela maneira como os pais lidam com o material escolar para os filhos pode-se avaliar o estilo de educação familiar reinante. Os filhos copiam a importância que os pais dão aos seus materiais escolares, que também será o quanto os filhos valorizarão os estudos. Bons alunos cuidam bem do seu material escolar.

O material é o instrumento do uso do aluno e lidar com ele significa o relacionamento que o aluno estabelece com ele. Esse relacionamento envolve várias etapas: comprar, usar, manter, preservar para poder guardar o que for importante e descartar o que não mais for necessário. Incluir neste descarte a doação a instituições que distribuam a quem dele precise para estudar. O aluno tem o seu material escolar como o cirurgião conta com seu instrumental cirúrgico, o motorista com o seu carro, o mecânico com sua oficina. Só a ferramenta não faz um bom profissional, mas a sua falta compromete-lhe a competência.
Faz parte do ensino que seus professores indiquem os materiais necessários para o seu conteúdo programático e a Escola todo o restante necessário para o bom andamento da educação pedagógica, geralmente por meio de uma lista.

Há pais que passam a lista diretamente para seus funcionários comprarem e entregarem todo o material prontinho ao filho, sem a participação deste. Apesar de financeiramente presentes, estes pais não estão participando da construção psicológica do papel de aluno. A ligação entre o desejo e a posse está sendo atropelada. Posse sem desejo tira um dos prazeres da vida. A fome é o melhor tempero da comida, já diziam os mais velhos. Assim também é o desejo que valoriza um prêmio, uma conquista, uma aquisição. Sem desejo, tudo fica igual, sem envolvimento emocional nem afetivo. Seu material escolar não tem vida. É um que já vem pronto, e não construído conforme os seus sonhos. Apesar de ser seu de posse, não lhe pertence e, portanto, nem tenha prazer em utilizá-lo como se deve. É como um professor que dá uma matéria pronta sem que seu aluno participe da construção deste conhecimento.

Alguns aluninhos chegam à escola arrastando uma mochila que de tão grande nem conseguem carregá-la. Voltando este filme, retomemos na hora da compra da mochila. O filhinho entra correndo no setor das mochilas e os pais falam a ele para escolher o que quiser. Os olhinhos brilham e ele pede a maior mochila que existe, cheia de compartimentos, penduricalhos, bolsas externas e zíperes aos montes... Ele quase cabe dentro. Os pais compram-no também com brilho de felicidade nos olhos por poderem comprar o que nunca puderam ter quando crianças. Eles acham que estão fazendo o melhor que podem, mas não estão, pois não se pode delegar a responsabilidade de compra a quem não tem competência para escolher. Os pais mais satisfizeram o desejo "desmedido" do filhinho do que compraram o que na lista se pedia. Assim são também com a quantidade e variedade de outros materiais que ultrapassam de muito as necessidades escolares. É comprar uma Ferrari para andar na fazenda. Por melhor ou mais cara que seja, este não é o veículo adequado para as estradinhas e atoleiros rurais. Os pais estão investindo no desperdício e despreparo para este filho se tornar um cidadão ético.

O ideal é pelo menos um dos pais acompanhar o filho nas compras para servir de adequação tanto na aquisição quanto na qualidade e na quantidade. Um caderno, que é encapado com capricho pelo pais, com o filhinho ajudando, deixa de ser material sem vida e passa a ser um objeto de prazer; promove lembranças futuras. Tudo isso propiciará maior cuidado e capricho nos estudos.


 
Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 26 livros.

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