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Saudade dói






Os espaços em branco provenientes da ausência de um ente querido, jamais poderão ser preenchidos. Conforme os anos passam a dor parece diminuir e a saudade parece aumentar. É isso que se supõe e talvez de fato aconteça, mas seja como for, a impressão é que nunca iremos parar de lamentar tal perda. Há dias que se tem vontade extrema de ver, conversar, abraçar. Algumas madrugadas se agigantam como se não houvesse amanhecer, de tanto que a gente lembra, de tanta saudade que a gente sente, de tanta vontade que a gente tem de estar junto... Nem que seja por poucos minutos, o tempo necessário para dar um abraço apertado e dizer: Até logo! Há certos dias que parecem sem vida, porque aquela vida que nos era tão importante não se faz mais presente. 

Lembro-me do formato do pé, lembro perfeitamente do pé, do acentuado contorno, da pele branquinha, dos pés no chinelo de couro e do olhar dos últimos tempos, um olhar distante que parecia já ter partido daqui. Um olhar que transmitia certa exaustão, como que uma canseira de tanto pensar, canseira de viver. Os braços cruzados sobre o muro apoiavam o queixo, ali ficava por algum tempo, em frente a casa olhando o mundo passar... E quem sabe visualizando inúmeros outros mundos, qualquer mundo que não fosse o dele. 

Muitas vezes parecia apenas de corpo presente, mesmo que calado parecia demonstrar vontade de estar em qualquer outro lugar, menos ali. Suspirava fundo, como que dissesse ter vontade de evaporar, desaparecer; suspirava longo, como que suplicasse paz... Como que necessitasse se sentir um pouco leve, voar como passarinho, espairecer para descansar do peso de tanta carga, tanto estresse. 

Então quem fica, fica a se questionar, se talvez pudesse ter feito algo para que o passamento não fosse tão cedo, quem fica se sente omisso, negligente, confuso, infeliz. Todos os dias nascem e morrem pessoas, mas para a morte nunca haverá absoluta explicação, muito menos absoluto conforto. Na teoria é bonito e fácil falar que devemos entender os ciclos da vida, que cada um tem sua hora, que Deus quis assim... Contudo, dentro de nós, verdadeiramente não entendemos nada, não conseguimos processar a morte de alguém que tanto amamos. Ficamos a pensar que sempre poderíamos ter feito mais, que poderíamos ter feito algo mais... Se apossa de nós um sentimento de culpa ao acreditarmos que não fizemos nada para impedir tal despedida. Despedida esta, que para nós sempre é prematura. 

Quando meu irmão se foi, foi-se de mim também a fé, tive meses entregue ao nada, me sentia vazia, infinitamente vazia e com a sensação de “sufocamento”, asfixia. Também tinha a sensação de acordar, me alimentar, me movimentar, tudo como que automaticamente, sem ver sentido e prazer em ato algum. Viver sem fé é mais que impossível, viver sem fé é como inexistir. Somente através da fé encontrei novamente um norte, somente através da fé voltei a ver sentido na vida. 

Desde o momento de sua partida eu sempre tive a certeza que ele estaria num bom lugar. Mesmo desprovida de fé, sempre tive certeza absoluta que ele estaria bem porque era completamente do BEM, assim seu destino em qualquer mundo em hipótese alguma seria diferente. Sempre o imaginei passeando tranquilamente em caminhos floridos, entre belas e coloridas flores, campos verdes, juntamente com espíritos de LUZ iguais a ele; sempre o imaginei feliz, o imaginei tendo encontrado a paz merecida, sempre o imaginei livre na sua essência, se sentindo pleno. Acreditar que ele está feliz e que o reencontrarei um dia, aquieta minha alma, faz meu coração sossegar. 

Hoje já se passaram alguns anos de sua partida e ainda é muito difícil estar aqui sem ele, apesar de todos os meus preceitos espiritualistas, ainda é sim, muito difícil estar aqui sem ele. Vem a mente que talvez o sentimento de saudade não precisasse existir, que as lembranças mesmo que boas poderiam desaparecer junto com a pessoa na hora de sua partida, inegavelmente seria um sofrimento a menos. Entretanto, após este pensamento, concluo que este é mais um dos propósitos do Criador, do Grande Arquiteto do Universo, para que não esqueçamos nossos entes queridos porque logo os reencontraremos em outra dimensão. 

Assim, apesar de estar com a face coberta de lágrimas, aqui estou, lembrando sempre de tudo como se fosse ontem... Do cuidado que meu irmão tinha comigo, do seu carinho, do quanto me amava, do zelo como se eu fosse sua filha... E com emoção indizível, lembro também como se fosse ontem, de meu irmão dizendo para minha filha com voz doce e terna: - O tio te ama! E palavras já não se fazem mais necessárias, finalizo sorrindo, sentindo a serenidade que devo sentir. Serenidade provida pela convicção de que aqui estamos apenas de passagem, para aprender, para evoluir. Quando retornarmos a nossa verdadeira morada, lá estarão nos esperando as pessoas que estão unidas a nós pelos verdadeiros laços de amor, as pessoas que nos são caras e que partiram antes. Neste dia, será um dia de festa, seremos libertados da matéria que tanto nos aprisiona, que tanto nos limita, que nos impede de entender o verdadeiro significado da vida... E da morte.


Lu Scheffelbain

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ao nome da autora Lu Scheffelbain  e ao blog http://eulunaluz.blogspot.com/