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Texto de abertura do livro QUEM AMA, EDUCA



FELICIDADE
 

"Os pais podem dar alegria e satisfação para um filho,
mas não há como dar-lhe felicidade.

Os pais podem aliviar sofrimentos, enchendo-o de presentes,
mas não há como comprar-lhe felicidade.

Os pais podem ser muito bem sucedidos e felizes
mas não há como emprestar-lhe felicidade.

Mas os pais podem aos filhos
Dar muito amor, carinho, respeito
Ensinar tolerância, solidariedade e cidadania,
Exigir reciprocidade, disciplina e religiosidade
Reforçar a ética e a preservação da Terra. 

Pois é de tudo isso que se compõe a auto-estima.
É sobre a auto-estima que repousa a alma,
E é nesta paz que reside a felicidade."

                                                                                                                                                                                             

Religião se aprende com a prática dos pais - Por Içami Tiba



O ser humano não nasce com religião, mas sim com o que eu chamo de religiosidade. É gente gostar de gente, unindo as pessoas, formando sociedades e civilização.

A religiosidade estabelece dentro da mente de um bebê uma hierarquia sensoperceptiva relacional. O bebê sente que algumas pessoas o acolhem melhor que outras e relaxa e se aquieta numa entrega total. Assim, ele demonstra que estabelece um primeiro critério puramente sensitivo: agradável/desagradável. Quando o bebê consegue, já estica os bracinhos em direção à pessoa que ele prefere. Ele não avalia o caráter, a intenção, a história da pessoa. Ele simplesmente prefere e pronto, sem se incomodar em ferir a sensibilidade de qualquer pessoa. Vive a sua paz.

Assim também surge outra hierarquia que é entre as pessoas conhecidas (que ele tem em sua memória também em formação) e desconhecidas. O bebê estica os seus bracinhos também para as pessoas mais conhecidas e chora quando estranhos se aproximam dele, mesmo que sejam parentes.

Guardar na memória as pessoas "agradáveis" e os conhecidos dá ao bebê as primeiras noções sobre relacionamentos humanos. Crianças acreditam no que os adultos lhes fazem e falam. Uma criança fica com sua auto-estima abalada se um adulto conhecido e agradável lhe ofende, mas também um agrado promove o contrário. A auto-imagem de uma criança é muito baseada na maneira como ela é tratada pelos adultos, pois ela confia plenamente neles.

Quando os pais são praticantes de uma religião, levam seus filhos pequenos juntos às práticas. É natural que os filhos perguntem aos pais sobre as práticas religiosas, como perguntam sobre tudo o que não sabem. Assim, eles acreditam em fadas, príncipes, Papai Noel e em Deus. Para o pensamento concreto das crianças tudo tem que ser forma e comportamento humano que é o que elas conhecem. Estes filhos absorvem o que os pais fazem, inclusive as suas práticas. Eles terão confiança e temores que os pais têm e nisto inclui-se a religião. Assim como os filhos obedecem aos seus pais, pela religião eles aprendem a obedecer ao seu Deus. Criança vê, criança faz.

Assim, os pais praticantes têm uma hierarquia de valores que passam naturalmente aos seus filhos, que passam também a praticá-la. Os praticantes de religião incorporam uma hierarquia de valores de respeito às autoridades religiosas e acima de todos está Deus, a entidade maior, mais poderosa, mais presente e mais sábia que todos e tudo no mundo, para a maioria das religiões.

A prática tem mostrado o quanto mais que outras uma criança que respeita seus pais tem mais facilidade de respeitar outras autoridades e pessoas, não se deixando levar pelos destemperos emocionais e tiranias tão presentes nos dias de hoje. Se os pais cumprem os mandamentos religiosos, os filhos também tendem a cumpri-los e assim a família e a escola religiosas passam a ter uma força e energia acima das próprias a torná-las mais unidas e encontradas.

A religião foi provavelmente elaborada por iluminadas lideranças humanas em tempos de grande sofrimento popular. O povo precisava acreditar em algo maior e melhor do que estavam vivendo. Com esta crença, os sofrimentos eram mais tolerados, pois havia algo superior a quem estavam atendendo. A sensação de estar a serviço de algo superior alivia o sofrimento e enobrece o sacrifício.

Na adolescência, o ser humano questiona e rejeita o que não aprova. Da religião, o onipotente juvenil questiona os dogmas, as verdades absolutas e imutáveis, de, para ele, "outros deuses". A religião perdeu muitos praticantes no mundo na proporção do exagero da sua distância ao natural saudável do ser humano, e da atualidade.

A maior força da religiosidade se manifesta exatamente na adolescência, quando ele acredita mais na sua paixão do que em qualquer religião ou força familiar impositiva. O espírito Romeu e Julieta existe hoje em qualquer canto do mundo, pois religiosidade é gente gostar de gente.
 

 
Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 26 livros.

Como lidar com crianças "ecotirânicas" - Por Içami Tiba



A vida não começa quando se nasce. Existe uma gravidez prévia e o preparo dos pais antes da gravidez. Nem a vida termina quando o que nasceu morre. Naturalmente ele deixa filhos e netos. Assim a vida continua e a humanidade caminha.

O cérebro humano não nasce pronto e continua se desenvolvendo por quase três décadas, mas continua aprendendo o resto da vida, desde que não adoeça ou sofra um acidente precocemente.

O período em que o cérebro mais se desenvolve é nos primeiros anos de vida da criança. Esta nasce sem um mínimo de conhecimento racional e consegue absorver o mundo que o cerca em pouco tempo. Basta verificar a dificuldade que um adulto tem para aprender uma língua nova, adquirir um comportamento novo ou largar um vício já arraigado dentro dele. Este potencial incrível de aprendizado está sendo desperdiçado pela nossa sociedade.

 

Outros desperdícios

Os maiores desperdiçadores são pais: na linha de pobreza que mal têm o que comer; analfabetos; dependentes químicos; psicóticos; neuróticos graves; deficiência mental grave; ausentes no convívio com as crianças; adolescentes com gravidez precoce; mãe solteira sem ajuda da família etc. Estes não têm condições de oferecer os cuidados mínimos necessários em saúde nem promover estímulos necessários para um bom desenvolvimento dos seus filhos, que chegam à escola já em desvantagem nas áreas cognitivas e emocionais em relação a outras crianças melhores assistidas.

Esta desvantagem vai se consagrando com a idade e propiciam repetências e abandonos escolares que, por sua vez, fortalecem as diferenças sociais, a perpetuação da ignorância e da pobreza, da violência social, dos analfabetos e analfabetos funcionais e o desemprego em um país que precisa de empregados. A atual escola sozinha e os pais conseguem diminuir, mas não reverter esta desvantagem.

 

Bons pais

Famílias desenvolvem filhos competentes, com boa auto-estima e integrados numa sociedade competitiva quando os pais têm cultura e educação, leem em voz alta para os seus filhos, fornecem estímulos lógicos e desafios com jogos educativos, não os negligenciam nas mãos de terceiros (creches, babás, irmãos com pequenas diferenças de idade, funcionários outros etc.), acompanham suas tarefas diárias (sim, crianças têm suas obrigações adequadas às suas idades), corrigem os seus erros e cobram o que lhes foi ensinado (fazendo-os arcar com as consequências dos seus comportamentos inadequados). É a diferença existente entre a criação silvestre (largada) e educação orquestrada (integrada) dos filhos.

Assim, o investimento na educação das crianças tem que ser iniciado com os seus próprios pais e/ou responsáveis e professores da primeira infância em grande escala.

Cenas domésticas que contribuem para o melhor entendimento do que expus são muito comuns. Escolhi a das crianças ecotirânicas em relação aos seus pais. Tirania é o método preferido dos incompetentes para reinarem. Dê poder a um ignorante que ele mostrará a ignorância no poder. Se um filho é criado como um príncipe herdeiro, e seus pais que se submetem aos seus caprichos ele abusará da tirania para impor seus conhecimentos e vontades.

São filhos que aprendem na escola o valor do consumo da água potável e da luz, tornam-se tiranos na sua aplicação em casa. Tornam-se ecochatos e ecotiranos, impondo o que sabem em vez educar e ensinar os seus pais no que estes não sabem. Não respeitam autoridade educativa dos pais. Sem reconhecimento nem respeito ao próximo não há educação.

 

Educação e respeito

Não é a submissão dos educadores aos caprichos, destemperos e desmandos dos filhos que que fará deles cidadãos éticos, mas sim investindo na sua educação.

James Heckman, americano, prêmio Nobel de Economia de 2000 afirmou que "para cada dólar aplicado, a sociedade ganhou nove", baseado em um estudo feito em educação na primeira infância em Michigan, Estados Unidos.

O Brasil, estando entre os dez maiores PIBs do mundo, tem como recuperar sua educação que está entre os piores do mundo se de fato ela receber uma real e ética priorização pública e familiar.


 
Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 26 livros.

Como criar o hábito do diálogo com os filhos? - Por Içami Tiba




Uma das grandes maravilhas de ser humano é o seu poder de dialogar, trocar idéias e experiências, compartilhar emoções, negociar, discutir e ... amar.

Somos mais inteligentes do que falamos. Pois a fala é somente um dos meios de comunicação entre dois seres pensantes. Os surdos e mudos têm a linguagem dos sinais, regida pela LIBRAS, linguagem brasileira de sinais. Há especialistas em leituras labiais e em linguagens extraverbais.

Um nenê já gesticula, solta sons, acena, bate palmas, mexe a cabeça, sorri, fica sério, chora, resmunga antes mesmo de falar. É um fato universal, não importa a cultura. Para mim, o pensamento precede as palavras.

Em geral o bebê já conversa com sua mãe com sons, vogais e poucas consoantes, sem palavras formadas. Com 12 meses, já usa as primeiras quatro palavras. Com 21 meses, seu vocabulário já conta com 20 palavras; e eles entendem muito mais.

Se uma criança nascesse e não tivesse nenhum contato com humanos, como o herói de aventuras Tarzan, o homem macaco criado por Burroughs, ou Mowgli, idealizado por Rudyard Kipling, ela deixaria de desenvolver a área cerebral da fala e seus respectivos correlatos cerebrais, alguns dos quais impossíveis de serem recuperados totalmente posteriormente. É o que acontece com os sotaques das pessoas que aprendem outras línguas após a puberdade.

Para falar, um nenê tem que pensar. Quanto mais cedo pensar, mais vai querer falar, e quanto mais falar, mais vai ter que pensar. É por isso que um dos meios de aclarar, organizar e amadurecer as idéias e desenvolver os pensamentos é simplesmente falar o que estiver pensando. Não se fala uma idéia sem sentido, mas pensar sem sentido é muito comum.

Um dos grandes motivos do esfriamento dos relacionamentos entre pais e filhos é a falta de comunicação verbal entre eles, mesmo que estejam emitindo mensagens extraverbais o tempo todo.

Quando um pai chega em casa, irritado, cansado, preferindo descansar em frente da televisão, mesmo calado, ele está passando a mensagem de que não quer ninguém por perto.

Quando uma mãe chega falando em casa, reclamando da bagunça, direto a preparar algo para todos comerem, cobrando de tudo e de todos, ela já passou a mensagem da sua posição e ninguém gosta de ficar por perto.

Assim, cada vez mais todos acabam ficando mais distantes uns dos outros, mesmo que convivam numa mesma casa. O que deveria ser um happy hour vira uma tragic hour.

Algumas dicas emergenciais para que o companheirismo volte ao lar:
Todos, ao chegarem em suas casas, têm meia hora para fazer o que quiserem, desde que não incomodem outros presentes;

É da responsabilidade de quem ficou em casa deixá-la em ordem: exigências crescem de acordo com a idade. Não é tarefa de mãe arrumar bagunças de ninguém;

O jantar deveria ser o happy hour: Não está com fome? Peça que todos se sentem junto, mesmo assim, pois o que importa é a companhia, a conversa, o alimento da alma;

Quem não jantar na hora, vai ficar sem comer até a manhã do dia seguinte. Ninguém morre de fome em casa que tem comida, mas o comer a qualquer hora estraga qualquer qualidade de vida;

Jantar não é hora de cobranças, mas sim de contar "causos" interessantes, piadas, aventuras, dar feedbacks do que está fazendo, perguntar como andam os projetos de cada um, compartilhar lembranças e sonhos;

Quem não dedica um tempo para conversar, jogar papo fora, orientar, aconselhar, fazer cobranças e espera que tudo aconteça, nunca terá este tempo. Ninguém fabrica tempo, cada um tem o seu. Já não há mais tanto tempo para realizar todos os desejos;

Após o jantar ninguém sai, nem assiste TV, nem usa o computador, nem dorme. É hora de fazer as obrigações. Não pode dormir enquanto não terminar. Nada de "amanhã cedo eu faço". Sacrifícios destes mais fortaleceram que mataram filhos. Se forem dormir, os pais têm que acordá-los para terminar;

Pais bonzinhos são "bobinhos", pois estão financiando a falta de formação e de educação (formação do futuro cidadão ético). Pais poupadores, que não impõem o cumprimento das obrigações dos filhos nem cobram bons resultados podem formar "príncipes esperadores" de heranças e de prêmios sem comprar bilhetes no lugar de terem filhos empreendedores.

 
Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 26 livros.

Bullying: Como reconhecer agredido e agressor? - Por Içami Tiba



Bullying é uma ação abusiva de uma pessoa mais forte para uma mais fraca que não se defende, escondido dos adultos ou pessoas que possam defendê-la.
Esta ação abusiva do bullying é caracterizada por agressão e violência física, constrangimento psicológico, preconceito social, assédios, ofensas, covardia, roubo, danificação dos pertences, intimidação, discriminação, exclusão, ridicularização, perseguição implacável, enfim: tudo o que possa prejudicar, lesar, menosprezar uma pessoa que se torna impotente para reagir e não revela a ninguém para não piorar a situação.
O agressor é ou está mais forte no momento do bullying, tanto física e psíquica quanto socialmente. Sua vítima, que é ou se encontra impotente para reagir sozinha, precisa de ajuda de terceiros. Além disso, o agressor usa de sua extroversão, da facilidade de expressão, da falta de caráter e ética, de fazer o que quer ignorando a transgressão ou contravenção e abusa do poder de manipulação de outras pessoas a seu favor. O agressor se vale das frágeis condições de reação da vítima e ainda o ameaça de fazer o pior caso ele conte para alguém. Assim, a vítima fica sem saída: se calar, o bullying continua, se tentar reagir, a agressão pode piorar. O número de agressores é geralmente menor que o das vítimas, pois cada agressor produz muitas vítimas.
A vítima é geralmente tímida, frágil e se apequena diante do agressor. Ela tem poucos amigos e os que têm são também intimidados e ameaçados de serem os próximos a sofrerem o bullying, apresenta alguma diferença física, psicológica, cultural, racial, comportamental e/ou algo inábil (destreza, competência etc.).
Mesmo que a vítima não fale, seu comportamento demonstra sofrimento através da perda de ânimo e vontade de ir para a escola (se o bullying lá ocorreu), da simulação de doenças, das faltas às aulas, dos abandonos escolares, da queda do rendimento escolar, do retraimento em casa e na sala de aula, da recusa de ir ao pátio no recreio, de hematomas ou outros ferimentos, da falta ou danificação do seu material pessoal e escolar etc.
Os futuros de todos se comprometem se o bullying não for combatido assim que descoberto. Os agressores, que já vinham em geral de famílias desestruturadas, tendem a manter na sociedade o comportamento anti-social desenvolvidos na escola, tornando-se contraventores e prejudiciais à sociedade. Os agredidos levam suas marcas dentro de si prejudicando seu futuro com uma desvalia e auto-estima baixos, alguns tornam-se revoltados e agressivos, vingando-se ao cometer crimes sobre inocentes da sociedade e até mesmo tornando-se contraventores.
Tanto a escola quanto os pais têm de ficar atentos às mudanças de comportamentos das crianças e dos jovens. Não se muda sem motivo, tudo tem uma razão de ser. Nenhum adulto pode instigar a vítima a reagir sozinho. Se ela pudesse já o teria feito. Foi por autoproteção que ela nada fez nem contou a ninguém.
Para o trabalho de prevenção e atendimento ao bullying sugiro quatro frentes:
  • Com as testemunhas: estimular a delação saudável, explicando que o silencioso é conivente e cúmplice do agressor. Garantir proteção e sigilo às testemunhas, que permanecerão no anonimato, aceitando seus telefonemas, e-mails, MSN, bilhetes ou pessoalmente as indicações dos agressores.
  • Com as vítimas, mantendo-as sob vigilância “secreta” sob a atenção de todos os adultos da escola e adolescentes voluntários neste ato de civilidade no combate ao bullying. É perda de tempo esperar que as vítimas venham a reclamar dos seus agressores. É também uma conivência e cumplicidade com o agressor.
  • Com os agressores, é necessário aplicar o princípio das conseqüências que são medidas tomadas pelas autoridades educacionais que favoreçam a educação. O simples castigo não educa. O agressor identificado deve fazer trabalhos comunitários dentro da escola, como auxiliar em algum setor que tenha que atender às necessidades das pessoas. Pode ser numa biblioteca, na cantina da escola, enfermaria ou setor equivalente etc. No lugar de agredir a vítima, ele deverá cuidar dela. Quem queima mendigos deve trabalhar com queimados, fazendo-lhes curativos e não ir simplesmente para a cadeia. Isso deve ser feito durante o recreio ou intervalo, usando o uniforme usual do setor.
  • Integração entre escola e pais, tanto do agressor quanto da vítima: quanto mais se conhece as pessoas, mais elas se envolvem e menos coragem têm para fazer mal umas às outras. Mudanças destes alunos para outras escolas não são indicadas. Todos aprenderão na correção dos erros praticados e não através dos erros cometidos.

 
Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 26 livros.

Material escolar: O pai deve ceder e comprar os materiais que o filho escolher? - Por Içami Tiba



Pela maneira como os pais lidam com o material escolar para os filhos pode-se avaliar o estilo de educação familiar reinante. Os filhos copiam a importância que os pais dão aos seus materiais escolares, que também será o quanto os filhos valorizarão os estudos. Bons alunos cuidam bem do seu material escolar.

O material é o instrumento do uso do aluno e lidar com ele significa o relacionamento que o aluno estabelece com ele. Esse relacionamento envolve várias etapas: comprar, usar, manter, preservar para poder guardar o que for importante e descartar o que não mais for necessário. Incluir neste descarte a doação a instituições que distribuam a quem dele precise para estudar. O aluno tem o seu material escolar como o cirurgião conta com seu instrumental cirúrgico, o motorista com o seu carro, o mecânico com sua oficina. Só a ferramenta não faz um bom profissional, mas a sua falta compromete-lhe a competência.
Faz parte do ensino que seus professores indiquem os materiais necessários para o seu conteúdo programático e a Escola todo o restante necessário para o bom andamento da educação pedagógica, geralmente por meio de uma lista.

Há pais que passam a lista diretamente para seus funcionários comprarem e entregarem todo o material prontinho ao filho, sem a participação deste. Apesar de financeiramente presentes, estes pais não estão participando da construção psicológica do papel de aluno. A ligação entre o desejo e a posse está sendo atropelada. Posse sem desejo tira um dos prazeres da vida. A fome é o melhor tempero da comida, já diziam os mais velhos. Assim também é o desejo que valoriza um prêmio, uma conquista, uma aquisição. Sem desejo, tudo fica igual, sem envolvimento emocional nem afetivo. Seu material escolar não tem vida. É um que já vem pronto, e não construído conforme os seus sonhos. Apesar de ser seu de posse, não lhe pertence e, portanto, nem tenha prazer em utilizá-lo como se deve. É como um professor que dá uma matéria pronta sem que seu aluno participe da construção deste conhecimento.

Alguns aluninhos chegam à escola arrastando uma mochila que de tão grande nem conseguem carregá-la. Voltando este filme, retomemos na hora da compra da mochila. O filhinho entra correndo no setor das mochilas e os pais falam a ele para escolher o que quiser. Os olhinhos brilham e ele pede a maior mochila que existe, cheia de compartimentos, penduricalhos, bolsas externas e zíperes aos montes... Ele quase cabe dentro. Os pais compram-no também com brilho de felicidade nos olhos por poderem comprar o que nunca puderam ter quando crianças. Eles acham que estão fazendo o melhor que podem, mas não estão, pois não se pode delegar a responsabilidade de compra a quem não tem competência para escolher. Os pais mais satisfizeram o desejo "desmedido" do filhinho do que compraram o que na lista se pedia. Assim são também com a quantidade e variedade de outros materiais que ultrapassam de muito as necessidades escolares. É comprar uma Ferrari para andar na fazenda. Por melhor ou mais cara que seja, este não é o veículo adequado para as estradinhas e atoleiros rurais. Os pais estão investindo no desperdício e despreparo para este filho se tornar um cidadão ético.

O ideal é pelo menos um dos pais acompanhar o filho nas compras para servir de adequação tanto na aquisição quanto na qualidade e na quantidade. Um caderno, que é encapado com capricho pelo pais, com o filhinho ajudando, deixa de ser material sem vida e passa a ser um objeto de prazer; promove lembranças futuras. Tudo isso propiciará maior cuidado e capricho nos estudos.


 
Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 26 livros.

Pais ocupados, filhos distantes - Por Içami Tiba



Vivemos um paradoxo inesperado. Trabalhamos tanto e conseguimos avanços tecnológicos incríveis para termos melhor qualidade de vida e tempo, mas temos menos tempo para nos dedicar à família. Muitos pais ocupados sofrem na pele com seus filhos adultos, jovens, adolescentes, ou crianças o não ter compartilhado da vida deles. Várias pesquisas entre os homens de sucesso mostram a distância que existe entre o que vivem e o que gostariam de viver com os seus filhos.
Entretanto, há pais que, mesmo tão ocupados nos seus negócios, seus filhos não lhes são tão distantes nem tão dependentes, como a maioria dos seus colegas e amigos são. Qual o segredo destes pais? São pais de Alta Competência. São pais dedicados também à família, não só aos seus negócios. Uma dedicação que vem de sua disposição interna e disponibilidade externa por terem colocado a educação dos filhos como prioridade.
A maioria coloca os negócios como prioridade em detrimento dos filhos. Assim negligenciam a vida, pois o viver é mais importante do que o negócio. O negócio foi criado e desenvolvido pelas mentes brilhantes dos humanos para melhorar a sobrevivência e assegurar a perpetuação da espécie.
Os pais de Alta Performance sabem da importância dos negócios, mas não são assimilados por eles: eles os assimilam para melhorar suas vidas e a dos outros. Quem vive para os negócios não é dono de si mesmo, mas sim escravo deles. E quando mais precisam da vida é que estes escravos dos negócios se dão conta do quanto deixaram de viver em suas famílias. Um infarto no estrangeiro, um acidente numa estrada longínqua, ou mesmo um filho envolvido com drogas ou uma gravidez precoce faz qualquer profissional rever sua vida.
Bons pais têm a noção da sustentabilidade de suas vidas. Escrever um livro, plantar uma árvore, ter um filho são nada mais do que nossas vidas continuarem mesmo depois de nossas mortes.
Os avanços tecnológicos trouxeram também o consumismo, o estresse, a falta de tempo... Falta de tempo? Acredito que nem tanto. Vivemos é em um mundo diferente. Temos tudo para poupar tempo. Revivemos amizades a um simples toque de teclado adentrando no mundo virtual. Encontramos tantos amigos num dia só que no passado levaríamos “séculos” para encontrá-los pessoalmente.
Os pais que dizem não ter tempo para os filhos estão vivendo a contradição de querer encontrar o tempo passado como seus pais e ancestrais faziam (sentarem juntos, jogarem papo fora, brincarem com ou lerem para os seus filhos etc). Cada pai pode falar com seus filhos no momento que quiser via celular, Orkut, Skype, MSN, torpedos, Twitter etc. Estes todos são instrumentos são do tempo presente para contatar as pessoas e não o contrário.
Pais de Alta Performance acompanham não só passo a passo seus negócios como também o caminhar e o desenvolver dos filhos na escola e dentro de casa. Basta um clicar e ele tem ao seu alcance as notas que não o surpreenderão no final do ano. Uma exigência e os filhos enviam mensagens pelo twitter resumindo a essência de cada aula que tiveram no dia, usando as suas próprias palavras. Para construir estas mensagens, o filho terá de transformar as informações recebidas do professor em conhecimento. Serve de resumo para as provas mensais.
Seu filho está preocupado ou sofrendo? Envie-lhe um torpedo perguntando como está e exija resposta mais longa do que um “tudo bem”, para agendar um encontro, quem sabe numa lanchonete, para almoçarem juntos e compartilharem este momento que pode ser o ponto de virada entre o bom e o mal resultado...
Afinal, são os filhos que vão nos sustentar na velhice, nas doenças da longevidade, além de perpetuar o nosso DNA pelo mundo afora.

 
Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 26 livros.

Como incentivar os alunos a melhorar as notas? - Por Içami Tiba




Estudante com nota ruim no final do semestre é um clássico. Para os professores também não deve ser fácil.O que eles podem fazer? Incentivar os meninos a estudar? Redobrar a cobrança?

"Vai estudar, meu filho!" Talvez seja a frase que um filho mais ouve dos seus pais, em período letivo. Os pais falam em diversos tons de voz que significam desde ordem, pedido, súplica, advertência, castigo e/ou até mesmo um simples lembrete. Há até pais que, por não gostarem de ver o filho ocioso, "vagabundeando" ou "sem fazer nada", passam-lhe logo uma atividade que lembra mais um "vê se faz algo útil".

Esta frase carrega em média uma insatisfação dos pais com os estudos do filho, principalmente no seu desempenho escolar. Entretanto, a responsabilidade não é somente dos filhos. É também dos pais que não desenvolveram este hábito e dos professores que não sabem como estimular os alunos a estudarem.

Um dos erros é a deturpação do aprendizado que ocorre quando se manda estudar. O mais correto seria dizer: "Vai aprender, meu filho!". A escola perdeu o foco do seu objetivo mais importante: Ensinar. A ação complementar ao ensino é a aprendizagem e não simplesmente o estudo. Parece que o aprender fica implícito no verbo estudar. Podemos aprender sem estudar e podemos estudar sem aprender.

O problema fica maior quando se cobra um tempo de estudo. Ficar em posição de estudo um determinado tempo não significa estudar, pois um filho pode estudar de diversas maneiras e em qualquer tempo. Em sala de aula o aluno precisa ouvir atentamente o professor. Perder uma explicação é um prejuízo muito grande, pois o custo para se aprender sozinho é muito grande, e pagar professor particular para quem não presta atenção ativa na aula é sustentar a preguiça, a falta de educação.

Cabe ressaltar que um aluno masculino geralmente não consegue conversar com colega e prestar atenção ativa à explicação de um professor. São duas atividades que o cérebro masculino elege uma delas em detrimento da outra: ou fala ou escuta. Bem diferente da feminina, cujo cérebro consegue escutar e falar ao mesmo tempo. O mesmo acontece com um professor masculino que, quando está explicando, qualquer conversa entre os alunos o atrapalha. A professora absorve melhor estas conversas sem perder o rumo do que esteja falando.

Felizmente, a educação escolar está despertando para o grande problema que tem em suas mãos: um estudante frequenta a escola, mas não aprende, ele decora nas vésperas da prova. O foco das questões do exame vestibular para cursar as faculdades está mudando. O que é testado é se o aluno tem conhecimentos, sabe lidar com os pensamentos, elaborar uma resposta, pensar, raciocinar, desenvolver e interpretar textos, criar respostas a situações inusitadas etc.

Torna-se essencial aos pais e professores estimularem e avaliarem o aprendizado e não a decoreba. Uma das maneiras para esta avaliação é a produção independente de que o aluno teria que fazer após cada estudo.
Fica fácil para os pais pedirem aos filhos que façam um resumo diário do que estudaram, ou da aula que tiveram na escola. Um resumo que contenha um mínimo de 60 palavras do vocabulário próprio, numa média de 4 linhas, sem usar uma palavra do texto ou aula original de estudo. Parece pouco? Parece muito? É o suficiente para expressar qualquer idéia bem formada.

Os professores também poderiam pedir, no final de cada aula, o mesmo resumo feito com mínimo de 30 palavras próprias sem pesquisar o texto. Quase do tamanho de um texto de Twitter. Este resumo poderia valer nota. Cada professor recolheria os resumos e os redistribuiria aleatoriamente a outros alunos, de tal maneira que um resume e outro lê, qualifica (em ótimo, bom, fraco e sofrível) e entrega ao professor. A verificação que o professor faz é por amostra de alguns resumos. O professor poderia incluir esta atividade para ser feita durante a aula.


 
Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 26 livros.

Valores e aprendizados não tiram férias - Por Içami Tiba

Os filhos não podem fazer nas férias o que não poderiam fazer em um final de semana, em uma viagem, em qualquer lugar, com qualquer pessoa, principalmente no que se referem aos valores, como respeitar o próximo e fazer-se respeitar por ele, cumprir as regras sociais e familiares, cuidar e preservar a saúde e a segurança, praticar a cidadania familiar etc.

O que tira férias são as frequências às aulas, com os seus conteúdos e deveres psicopedagógicos, juntamente com o relacionamento professor-aluno, e não o viver com qualidade e o constante aprendizado da vida para sermos pessoas de "alta performance".

Mesmo chocando uns, há outros pais que querem tirar férias dos filhos pequenos porque precisam descansar, descontrair, fazer uma viagem, dar um tempo na rotina profissional e até mesmo dos filhos que não lhes dão sossego. Adultos quando chegam aos lares querem paz, e, crianças, querem pais. Todavia, não seria de se estranhar se estes filhos quisessem "se ver livres" destes pais cansados e também tão cansativos.

Adultos há que se permitem fazer em viagens, na praia, no clube ou quando estão de passagem em algum lugar o que não fariam em casa: jogar papel na sala, atirar pela janela latas e garrafas de bebidas (cascas de frutas, sacos de papel) no seu próprio jardim, deixar banheiro sujo, cuspir no tapete, fazer as necessidades nos cantos dos quartos etc. Estes adultos não estão tirando férias da sua casa, mas dando férias à educação e à civilidade. Importantes valores devem acompanhar as pessoas como se fossem a própria alma estejam onde e com quem estiverem.
Estes pais estão financiando a falta de educação, o desrespeito ao próximo, a depredação e o uso pirata do seu mundo e a negligência com os deveres sociais aos seus filhos.

Portanto, é na convivência com os filhos que os pais mostram como se comportar civilizadamente em qualquer lugar. Reforço aqui a importância da prática doméstica da educação pela cidadania familiar: ninguém pode fazer em casa o que não poderá fazer fora de casa e todos devem praticar em casa o que deverão fazer na sociedade.

A cidadania familiar nunca tira férias. Mesmo que um filho esteja de férias, longe dos pais, ele não deve fazer o que aprendeu em casa que não pode fazer: experimentar drogas é um exemplo.

Içami Tiba

Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 26 livros.

O desafio da inclusão escolar - Por Içami Tiba

A inclusão escolar é uma recomendação baseada na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/96.

Fica a pergunta: Qual a população que já está excluída da escola e que necessita desta recomendação?

É a população formada por pessoas que não conseguiram ser matriculadas por apresentarem diferentes deficiências (visuais, auditivas, da fala, mentais etc) que dificultassem o aprendizado regular. São as pessoas deficientes visuais, auditivas, mentais etc., que necessitam de recursos especiais para o aprendizado natural, apresentado pela maioria da população.

A lei acima tem boa intenção, pois muitos cadeirantes estão excluídos não pela dificuldade de aprendizado, mas de locomoção. Assim como a sociedade ainda é deficiente para atender as demandas dos cadeirantes, a escola também é, pois não apresenta condições físicas satisfatórias, tais como banheiros e refeitórios adaptados ou rampas e facilitações de acesso que possibilitem o seu direito de ir e vir sem depender de terceiros. O descaso de cidadãos sem ética nem civilidade que não respeitam nem as demarcadas vagas de carros a cadeirantes também ocorre na escola. Ou não seria o caso desta exclusão já existir na escola? Há deficiências físicas, como a de voz, a visual e a auditiva, em que as pessoas que as têm apresentam inteligência compatível com o aprendizado escolar, mas necessitam de ajuda de terceiros ou de recursos especiais para o seu aprendizado. Muitas escolas teriam que se adaptar para receber os cadeirantes para não exigir demais a ajuda de terceiros. Acredito no desenvolvimento da cidadania e civilidade de todos os envolvidos na inserção do cadeirante.

Uma sociedade deveria ter a possibilidade de atender a todos os tipos de deficiências. Isso poderia ser feito também na escola, para benefício inclusivo em salas de aula, desde que também houvesse pessoas e/ou recursos auxiliares extras, como a LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) para surdo-mudos, leitura Braille para cegos etc. Uma pessoa com deficiência deveria freqüentar uma escola regular, desde que contasse também com professores especialmente capacitados.

Para que a citada recomendação fosse à prática diária dos professores em sala de aula seriam necessárias no mínimo duas medidas iniciais:

  1. Acabar com a cultura da expulsão do aluno da escola e da sala de aula. As autoridades pedagógicas que usam deste expediente estão praticando a cultura da exclusão. Esta exclusão escolar alimenta a exclusão social, sejam lá quais forem os motivos nas quais se fundamentem os pedagogos. Antigamente, os leprosos eram excluídos da sociedade por não conhecerem na época os tratamentos que hoje são praticados.
  2. Desenvolver e promover a cultura da inclusão de alunos regularmente matriculados através de medidas de adoção daquele aluno que seria expulso (por não fazer a lição, não estar de uniforme, perturbar o bom andamento da aula, confrontar autoridade pessoal dos pedagogos, etc.). O líder pedagógico e professores em geral poderiam estimular os alunos a adotarem alunos perturbadores. Poderiam acolher colegas voluntários que pudessem funcionar como tutores pessoais dos alunos em defasagem para ajudá-los a serem incluídos.
Não será por uma recomendação legal que os alunos que apresentam algumas deficiências serão incluídos em salas de aulas regulares, pois estes alunos sentir-se-ão mais excluídos se não receberem os cuidados de que realmente precisam. A inclusão será natural quando os professores forem capacitados para trabalharem também com as diferenças pedagógicas já no seu currículo de formação acadêmica ou como atualização obrigatória dos professores já formados.
 

Içami Tiba

Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 26 livros.

Ensinar Valor do Dinheiro - Por Içami Tiba

Uma criança pode apreender sobre tudo o que acontece à sua volta. Apreender é captar para poder usar. Se não conseguir usar é porque apreendeu mas não aprendeu. Aprender é tornar-se dono de um conhecimento.
Se ela vê dinheiro e logo quer comprar qualquer coisa, significa que ela aprendeu que dinheiro é para gastar; mas, se ela quiser guardar, é porque aprendeu algo a mais que gastar. Gastar ou guardar pode ser aprendido pela observação ou pelo aprendizado. É do instinto do bebê levar à boca tudo o que pega. Mais tarde a criancinha quer pegar tudo o que vê.
Com quem a criança aprendeu a gastar ou a poupar dinheiro? Por que nenhuma criança vai à rua e vai se apossando de tudo o que vê num supermercado? Porque ela não vê alguém fazendo isso e quando ela quiser fazer, sempre terá algum adulto que lhe dirá para não fazer assim. Para se apossar, tem que pagar. Se ela insistir em pegar, seu adulto responsável lhe dirá para não fazê-lo porque é preciso pagar para pegar. Se ela pegar sem que tal adulto veja, o dono do objeto pretendido ou qualquer outro que estiver por perto ou até mesmo o segurança do supermercado vai proibi-la e se ela fizer escondido, será pega em flagrante por furto. É o limite que a sociedade impõe.
Por que a criança tentou se apossar de algo que não é seu? Porque em casa ela podia pegar o que quisesse, menos o que os adultos proibissem. Se ela pudesse fazer em casa tudo o que quisesse, não entenderia o limite que fora de casa outros adultos iriam lhe impor. Em uma casa onde adultos não estabelecem nenhum limite estão deixando de ensinar uma importante regra social: não nos apossamos do que não nos pertence. A criança aprende a lidar com sua vontade de pegar: em casa é mais permissivo e na rua não é. Mas ela observa seus pais e outros adultos pagando para se apossar das compras que fizeram. Ela apreendeu esta imagem. Quando ela pega e pede para a mãe pagar, ela aprendeu que, para possuir, tem que pagar. Também aprendeu que são os adultos que têm dinheiro. Logo ela também quer ter a posse do dinheiro. Isso acontece antes de ela saber o valor unitário de cada moeda ou nota.
Quando a criança entrega uma moeda para se apossar de um brinquedo na loja, ela aprende o valor intrínseco em cada unidade de dinheiro. É quando pergunta aos pais o que ela consegue comprar com “aquela moeda”.
É este o momento oportuno para se ensinar à criança que se quiser comprar um brinquedo ela tem que juntar dinheiro. Então ela sai correndo atrás das moedas soltas pela casa, o que deve ser reforçado pelos pais, e pede dinheiro a quem ela achar que o tem. Os pais têm de ajudar o filho a selecionar estas pessoas: não se pode pedir dinheiro aos funcionários da casa, mas nada impede que peça aos parentes próximos. Não se pode pegar o dinheiro dos outros sem pedir para eles. Sentar com pai, mãe ou qualquer outro adulto de confiança, para contar o “seu dinheiro” é algo que lhe dá satisfação e significado ao acumular dinheiro. É preciso deixar tudo muito bem explicado ao filhinho: que o dinheiro é dele e pode comprar o que quiser desde que os pais aprovem. Sem esta explicação os pais correm o risco do filho aprender que: “o dinheiro é meu e compro o que eu quiser”. Os pais não podem dar dinheiro hoje para os filhos comprarem drogas amanhã.
É quando o filho começa a dar significado ao dinheiro e aprende a lidar com o seu real valor que se pode começar a combinar sobre mesadas. A Educação Financeira hoje é tão importante que lhe dedico um capítulo inteiro, com 14 páginas, no meu livro Adolescentes: Quem ama, educa!, Integrare Editora.

Içami Tiba

Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 26 livros.

Como fazer a prevenção com adolescentes em relação às drogas? - Por Içami Tiba





Os pais hoje educam os filhos para que usem drogas na adolescência.

Esta é uma constatação pesada, mas você pode acompanhar a minha experiência clínica na educação para também constatar a afirmação acima.

Um filho quando é educado em casa para fazer o que tiver vontade e não fazer o que deve ser feito, por que não fazer o mesmo na rua? Quem for educado através de uma cidadania familiar, não lhe será difícil ser um bom cidadão. 

Cidadão todo mundo é, porém nem todos desenvolvem a cidadania. Pois cidadania é exatamente pensar também em outras pessoas e não simplesmente satisfazer a sua própria vontade. Quem realiza as suas vontades não se incomodando com os seus pais nem irmãos vai se incomodar menos ainda com estranhos.

Cidadania é se incomodar com as pessoas que nem conhece para ajudá-las a viver melhor, para não lhes causar prejuízos, trabalhos, desgastes e preocupações desnecessárias. Cidadania é não usar drogas.

Assim, um filho para ser bem formado, para ser um cidadão ético, tem que receber uma educação que valorize a ética, que desenvolva a sua responsabilidade social.

Todos os seres vivos fazem o que tem vontade ou necessidade de fazer. Mas foram os seres humanos que desenvolveram a civilização graças à sua inteligência e o espírito de equipe para juntos enfrentarem as feras, sobreviver às catástrofes geológicas e climáticas, para terem filhos. 

O espírito de equipe é defender mais o conjunto de pessoas que a própria pessoa fazer o que simplesmente o que tiver vontade de fazer. Um time de futebol, onde cada um dos jogadores faz o que tem vontade, não ganha o jogo. Se cada ser humano fizesse o que simplesmente gostasse de fazer, talvez não tivéssemos construído esta civilização.

Fazer a própria vontade significa: 
- não respeitar autoridades nem regras do local onde se encontra;
- não cumprir com o que se prometeu;
- satisfazer as necessidades fisiológicas assim que as sentir;
- usar o que quiser, mesmo que não lhe pertença;
- validar tudo o que dê prazer e sem considerar se é bom ou ruim; etc. 

A realização de um desses itens já mostra uma ação má educada. Se um filho tiver o costume de fazer pelo menos um destes hábitos, já estará sendo mal educado. Não estará com espírito de equipe com quem estiver convivendo.

Um filho mal educado em casa, não terá porque ser educado fora de casa.

A adolescência é um segundo parto. É um nascer da família para entrar na sociedade. É pertencer a um novo grupo social, a turma de iguais ou pares. 

Longe dos seus pais, na sua turma, nada impede o filho de fazer o que tiver vontade em detrimento do que deveria ser feito. Jogar bola em vez de estudar. Beber em vez de se conter de beber já que vai dirigir. Usar drogas em vez de se preservar. 

Atendi muitos usuários de maconha. A todos perguntei por que usam? Geralmente me respondem porque é bom!. Então pergunto por que é bom? e eles respondem porque é gostoso!. 

Estas respostas mostram a falta de educação. Justificar ser bom por ser gostoso é uma mistura de critérios de sensação física com o que deve ou não ser feito. 

As substâncias psiquicamente ativas são usadas como drogas porque elas provocam prazer. Mas nem tudo que dá prazer é bom. Assim como nem tudo que é bom dá prazer. 

O que vicia é o prazer, pois o cérebro reptiliano (primitivo do ser humano) leva a pessoa a repetir o gesto que lhe deu prazer. É o mecanismo de ação do sistema de recompensa do cérebro.

Saciar uma necessidade fisiológica como comer, ter relações sexuais etc. estimula o cérebro a comer de novo, a transar de novo. As drogas também estimulam este mesmo sistema de recompensa. 

O problema das drogas é que elas viciam mais que comer e transar, pois elas desenvolvem tolerância - doses cada vez maiores para se conseguir o mesmo efeito prazeroso, compulsão - necessidade de usar a droga outra vez e síndrome de abstinência - falta que a droga faz ao organismo de quem já esteja acostumado com os seus efeitos. 

Quem usa drogas não respeita regras, atende mais a sua vontade - necessidade - de prazer e faz mal à sociedade e à sua família além de a si mesmo.


Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 26 livros.


Obesidade e problemas de comportamento - Por Içami Tiba




O corpo humano é um reservatório de calorias. Não existe uma medida única de gasto diário de energia, pois ela depende de características pessoais, como biótipo, altura, peso, idade, condições hormonais, atividades, qualidade de sono, comportamentos, estados psicológicos, filosofia de vida, e de características ambientais como clima, temperatura, altitude, estações do ano, locais (praia, montanha).
O melhor controle para se conseguir um bom e saudável equilíbrio calórico é se pesar. Para isso, deve-se tomar alguns cuidados como: usar sempre a mesma balança e as mesmas roupas; pesar-se de preferência antes ou depois do banho diário, nas mesmas condições do dia e de alimentação. As pessoas que usam as próprias roupas como medidas só constatam alterações maiores do que 5% do seu peso ideal. O cinto é um acessório que só demonstra o perímetro abdominal, mas engorda-se também nos quadris, no peito e nos braços.
Chega-se ao peso pessoal ideal com a ajuda de um especialista. Uma pessoa só engorda se ingerir mais calorias do que gasta e emagrece se gastar mais do que come. É muito simples: comeu a mais? Engorda. Comeu a menos? Emagrece.
Geralmente os obesos se queixam que não sabem por que são gordos se comem tão pouquinho... Ora, se engordou é porque ingeriu. Não se cria caloria do nada. Pessoas sem tempo comem rapidamente “qualquer coisinha” no lugar de uma refeição saudável. Esta geralmente tem menos calorias e mais sais minerais e vitaminas, promovendo a saciedade, um dos ingredientes da saúde e da qualidade de vida. Quem come depressa não percebe o que comeu. O maior engano é sair de casa somente com um cafezinho para o trabalho ou para a escola, comer “qualquer coisa”, geralmente muito calórica, no meio da manhã e fazer apenas uma refeição (almoço ou janta) por dia. A soma destas calorias geralmente é maior do que o consumo diário de alguém que faz várias refeições.
O nosso cérebro está programado para a sobrevivência. O que se come em excesso, o cérebro manda o organismo acumular. O que se acumula de gordura comendo uma vez por dia não se consegue queimar em um dia.
O apreço aos sabores passa a ser desenvolvido desde os primeiros alimentos. Portanto, quando um nenê já começa a ser alimentado com comida saudável ele com certeza não será gordo. Pais adoram a figura clássica de um bebê feliz: rechonchudinho, bochechudinho, mãozinhas e pezinhos gordinhos, formando até furinhos nos lugares onde é impossível engordar... Pois este nenê, se assim continuar, será um obesinho e morrerá cedinho, bem antes do tempo acometido por uma série de doenças “evitáveis”: diabetes tipo 2, pressão alta, altas taxas de açúcar e gordura no sangue, entre outras.
Como psiquiatra, sempre ressalto que quem não aprende a comer de maneira saudável, além de morrer mais cedo, apresenta características comportamentais problemáticas - principalmente baixa tolerância às frustrações, atrapalhando a própria vida e a de todos à sua volta.
O comer saudável diz respeito a qualidade e quantidade dos alimentos e também à maneira de comer. Tudo o que fazemos obedece a um ritmo: ingerir (comer) as informações, transformá-las (digestão) em conhecimentos e praticá-las (desenvolver o corpo e as experiências de vida).
Quem mastiga bem dá tempo para o cérebro enviar mensagens para o tubo digestivo continuar trabalhando ou para parar de comer, quando há sensação de saciedade. Quem aprende a esperar e resolver situações no tempo certo melhora em tudo, desde comer até estudar, trabalhar e se relacionar com outras pessoas. Há pais que, ao satisfazerem imediatamente a criança nas suas mínimas vontades, não estão ensinando a mastigação e a digestão das recompensas, dos prêmios e da saúde mental. Esta se torna uma criança obesa em vontades, que parece que vai morrer se não for atendida imediatamente. Não aprende a esperar para falar, para fazer, para ouvir primeiro e depois falar. Enfim, torna-se uma criança mal educada.


 
Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 26 livros.

Fonte: http://educacao.uol.com.br/colunas/icami_tiba/2010/08/04/obesidade-e-problemas-de-comportamento.jhtm

Crianças aprendem brincando... - Por Içami Tiba



Dois amiguinhos de 6 anos estão brincando no pátio de sua escolinha. Zezinho, o “Palito”,  é um menino magrinho e ágil e Zelão, o “Bola”, é forte e pesado.
O “palito” propõe ao “Bola”: Vamos brincar?
-Do que? Pergunta o “Bola”.
- De pega-pega!  - e o “Palito” já dispara numa corrida em linha reta para a frente e o “Bola” tenta pegá-lo e não consegue. O “Bola” vê o “Palito” se distanciando cada vez mais e dá-se conta de que não vai conseguir pegá-lo. Então grita, já parando de correr:
- Correr aí não vale!
“Palito” para de correr e volta para onde o “Bola” está.
O que aconteceu entre estes amiguinhos?
Eles praticaram uma grande lição de vida: os valores de respeito ao próximo, de disciplina, de diversão, de estabelecimento de limites, de relacionamento humano estar acima dos interesses pessoais.
Era do interesse comum o desejo de brincarem juntos. O “Palito” perguntou se o “Bolão” queria brincar. Esta brincadeira não teria acontecido caso o “Bolão” não quisesse. “Palito” propôs a brincadeira na qual ele tinha certeza que levaria vantagem porque era mais rápido. Seria uma competição divertida, lúdica. Bastaria “Bolão” não correr atrás e acabaria a brincadeira. Porém ele havia aceitado; mesmo sabendo que iria perder, correu atrás do “Palito”. É a disciplina em ação: mesmo perdendo a corrida, mantinha o prazer de brincar. Neste momento era mais importante o manter a brincadeira do que perder ou ganhar. Se há um vencedor, tem que haver um perdedor. Faz parte do jogo. Tão simples assim. “Bolão” não largou a brincadeira porque perdeu. Ele já sabia que perderia quando aceitou o pega-pega.
A grande questão foi: Por que “Palito” parou quando “Bolão” gritou que correr lá não valia? Como ninguém havia combinado antes qual seria o território da brincadeira, o que “Bolão” quis foi advertir que se “Palito” continuasse correndo, “Bolão” não brincaria mais. Para “Palito” também era mais importante manter a brincadeira do que ganhar ou perder. Quer dizer: “Palito” atendeu a advertência porque queria continuar brincando. Se não parasse, a brincadeira acabaria naquele instante. Era chegada a hora do limite que o “Bolão” suportava. Além disso, “Palito” perderia um companheiro de folguedo, e a diversão acabaria.
“Palito” voltou para onde “Bolão” parou já sabendo que era a vez do outro propor a próxima brincadeira, pois ele havia já proposto o pega-pega. Caso “Palito” quisesse propor outra brincadeira, seria injusto com o “Bolão”. Para a brincadeira continuar ela tem que ser democrática onde todos se divertem e não somente um se diverte enquanto o outro simplesmente é ridicularizado ou desrespeitado.
Quando “Bolão” sente que “Palito” está ao seu alcance, ele avança no pescoço dele e o enforca com o seu braço enquanto já vai dizendo: Agora é luta-livre! (ou judô, ou “ultimate fighting”) e já rola por cima dele e o deixa roxinho... “Palito” pede água batendo-lhe onde alcançar rapidamente várias vezes com mão aberta. É uma forma de dizer que não está mais agüentando.
Aqui também todas as considerações sobre o pega-pega podem ser revistas. Mas o principal motivo para o “Bolão” parar de enforcar o “Palito” é porque ambos sabem que com morto não se brinca...
... e saem os dois abraçados em busca de novas e divertidas aventuras.
“Palito” e Bolão” não precisaram que nenhum adulto os ensinasse a brincar. Assim como outras crianças, eles aprenderam a ser saudáveis companheiros num excelente relacionamento. Foi por estas e outras tantas brincadeiras, ambos poderão ser sócios-fundadores de uma empresa empreendedora e terão grande sucesso mundial.

 
Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 26 livros.

Fonte: http://educacao.uol.com.br/colunas/icami_tiba/2010/11/11/criancas-aprendem-brincando.jhtm

Como falar sobre a morte para as crianças - Por Içami Tiba

Uma das maiores preocupações dos pais e parentes é como proceder com as crianças perante a morte de um parente próximo. Deve-se esconder das crianças que alguém morreu? O que falar? Como falar? Levar ou não ao velório? Beija ou não o morto? Por que se acendem as velas? Como responder às perguntas das crianças? Faz mal para a criança ficar em casa onde se faz o velório? Quais são as desculpas mais usadas para as perguntas das crianças? Os pais podem manifestar seus sentimentos em frente de uma criança?
Esconder a morte para as crianças com certeza não é um meio eficaz para que elas compreendam, aceitem e superem o fenômeno da morte de alguém importante para elas.Os nenês e bebês que ainda não conseguem se expressar verbalmente o que sentem e ainda não realizam em suas mentes que a morte é irreparável. À medida que a mente amadurece, a criança adquire os pensamentos abstratos, explicações mais completas, raciocínios hipotéticos, entender as causas ao avaliar as conseqüências etc.
Como explicar para crianças o que não sabemos? Se temos nossas crenças, sejam elas religiosas ou não, temos mais facilidade para explicar a morte através delas, usando figuras com as quais elas já estejam acostumadas e, assim, evitar que a criança se sinta culpada pela morte de alguém.
O que e como falar depende muito do clima da pergunta. Se ela está brincando e correndo com outras crianças vale a pena dizer que depois explica em um momento melhor. Se ela voltar a perguntar sozinha, então temos que dar a seriedade que a resposta e a criança merecem. Falar claro, baixo e naturalmente prestando atenção nas reações que a criança apresenta. Quem responde é a pessoa que recebeu a pergunta.
Vale a pena garantir que vai responder o que sabe, mas gostaria que a criança falasse antes o que ela mesma pensa sobre a morte. A criança precisa receber uma referência básica, na qual se baseiem todas as respostas. Por exemplo, “quem está vivo, morre”. Após falar, aguarde a resposta da criança antes de continuar a explicar. Temos que respeitar a reação dela. Se ela sair correndo, acabou a conversa, por enquanto, até ela voltar a perguntar.
O que acontece com a pessoa que morre? Podemos responder com os nossos rituais culturais.
Eu também vou morrer? Sim, mas não agora, pois é natural morrer depois de velho.
Por que ela morreu? Dizer o real motivo, como idade, doença, acidente etc. Evitar explicar os crimes hediondos, descrever como morreu, se sofreu muito ou não, pois estas respostas podem ser desnecessárias às crianças que nem perguntaram.
Papai - mamãe, avós, irmãos, pessoas a ela ligadas, até cachorrinho – vão morrer? Sim, mas depois de bem velhinhos.
Atitudes que uma criança nunca teve como beijar na mão ou no rosto, ou abraçar, não devem ser feitas ao falecido, a não ser que ela mesma queira. Nunca por insistência dos mais velhos, mesmo de parentes íntimos.
Se for perguntado por que está triste, o adulto deve explicar que está numa despedida de uma pessoa que nunca mais vai voltar. Quem morre não volta a viver.
Atualmente não se faz mais velórios em casa como antigamente. Mas se o fizer, o próprio clima dos parentes do falecido contagia as crianças educadas que sabem se comportar no aposento do velório e para o silêncio da casa, mas nada impede com outros parentes com a mesma idade.
Se a criança quiser ver o rosto do falecido, deve ser mostrado, para que ela não crie fantasias que nada tem a ver com a realidade. Ver ajuda a elaborar a perda. Se possível, dizer que parece que o falecido está tranqüilo, que não sente nem pensa mais nada.

Içami Tiba

Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 26 livros.

Fonte: http://educacao.uol.com.br/colunas/icami_tiba/2010/10/26/como-falar-sobre-a-morte-para-as-criancas.jhtm

Que tipo de lazer cultural oferecer aos filhos? Por Içami Tiba

Para pais provedores, afetivos e educadores não há férias destas funções com os filhos presentes ou ausentes. Mesmo que se afastem fisicamente, psicologicamente continuam ligados aos filhos. Estas ligações vão desde saudades de quem ama, a preocupações presentes/futuras, reais/imaginadas e estados de alerta/prontidão para sair correndo a qualquer instante.

Todos os pais sabem que os filhos são bem diferentes entre si quanto às atitudes, comportamentos, temperamentos que os predispõem a maiores ou menores riscos de vida, se crianças, adolescentes ou adultos jovens, se único ou se tem irmãos, se masculinos ou femininos etc. Portanto merecem cuidados diferentes.

Uma das maiores responsabilidades dos pais é a educação dos filhos. Tanto pela educação escolar, pela construção de competências profissionais através do seu currículo psicopedagógico, quanto pelos valores que deverão estar presentes em todas as suas ações por toda a vida, tal qual o idioma materno.

Não há como os pais educarem seus filhos como foram educados soltos pelos seus pais, pois a educação deve ser a mais atualizada possível, e a infância está curta demais para se deixar as crianças fazerem apenas o que gostam. Se os filhos recebem uma educação já ultrapassada hoje, como poderão enfrentar um futuro que não sabemos como será? Este futuro já atinge as crianças que iniciam a escolaridade com dois anos de idade: quando nem bem tiveram sua socialização (educação) familiar, já entram na vida, com pares na comunidade. Será que receberão na escola o que nem receberam ainda dos pais? Este cenário se complica quando a mãe também trabalha fora, como acontece na maioria das famílias brasileiras e mundiais.

Os pais precisam hoje aproveitar toda e qualquer atividade dos filhos desde a mais tenra idade para passar valores, pois o que acontece hoje é o contrário: quando os pais ficam com os filhos os deixam fazer tudo o que querem desde que seja prazeroso, e param de educar.
A educação não é uma ação tirânica, desprovida de prazer que maltrata os filhos. Ela deve estar presente na vida do filho desde muito cedo, antes mesmo de ir à escola.


Deixar uma criança crescer fazendo somente o que tem vontade e lhe dê prazer é um crescimento silvestre, propiciando a falta de educação que custa caro pelo resto da vida. A ação educativa dá trabalho, mas é um fruto que dura por toda a vida. Com o tempo de infância muito encurtado, todas as atividades, jogos e brincadeiras têm de ser aproveitadas para a educação orquestrada na formação do futuro cidadão ético, competente e feliz.

Uma das grandes falhas na educação que se manifesta hoje desde a infância é o Bullying, que piora na juventude (ataques preconceituosos a minoritários como gays, negros, pobres e mulheres) e deixa ranços para o adulto (assédio moral, assédio sexual, alienação parental). Crianças que impunemente ofendem, agridem, violentam querendo levar vantagens sobre os outros, sem se preocupar com os sofrimentos dos pais em casa, costumam levar este comportamento para a escola, para o social e futuramente para o trabalho.     

Orquestrar a educação significa escolher quais são as atividades prazerosas e construtivas próprias para a personalidade e adequadas à idade. Esta orquestração não tira férias. Em todas as atividades, como brincadeiras, leituras, passatempos e diversões, os filhos já têm que receber estes valores juntos aos ensinamentos, cobranças, e participações dos pais na vida dos filhos.  

Muito bom é escolher programas próprios para a idade, prazerosos e educativos (cinema, teatro, leituras, jornaleiro, livrarias, museus, pontos históricos da cidade etc.) e chamar atenção ocasionalmente para detalhes interessantes e comentar depois, ressaltando os pontos positivos do mocinho, como ética, companheirismo, gratidão, bondade e ajuda ativa; e os negativos do bandido, como ruindade, egoísmo, prepotência, preconceito, traição, desonestidade, violência etc. Separar sempre ficção da realidade. Estas conversas gostosas ajudam a implantar e desenvolver princípios e valores que deverão estar presentes nas ações do dia-a-dia.

Içami Tiba

Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 26 livros.

Fonte: http://educacao.uol.com.br/colunas/icami_tiba/2010/11/23/que-tipo-de-lazer-cultural-oferecer-aos-filhos.jhtm

Dr. Içami Tiba - Entrevista sobre Limites





RS: Como educar os filhos nos dias de hoje?
IT: Hoje, para se educar, os pais precisam se preparar porque não adianta ser pai e mãe biológicos, pois isso não capacita pais para educarem. Então, a melhor maneira de educar é os pais aprenderem como se educa conforme a idade. Hoje, existe uma literatura muito vasta, basta que os pais coloquem como prioridade. Pode ser assistindo a um programa como este (Papo de Mãe), pode ser lendo livros... Em todos os jornais, pelo menos uma vez por semana, tem destaque uma parte para educação. Tem revistas... Então só não lê, só não se atualiza, quem ainda não entendeu que precisa colocar isso como prioridade.

RS: Antigamente era mais fácil educar?
IT: Não. Antigamente, não se educava também. Exigia-se e escravizava-se. Se a gente tivesse sido educado, nós saberíamos como educar. Educação é uma competência. É como um líder: um líder ensina o outro a ser líder também. Uma pessoa que é chefe ensina o outro a ser chefe. Nós aprendemos a ser chefes e não líderes. Mas hoje estamos numa outra época, em que os filhos aceitam muito a liderança, só que ela é rotativa, não é de uma pessoa só.  Se o filho entende de internet e o pai não entende, então quem vai liderar este tema vai ser o filho, e todos na família ganham com isso. Ficou de ponta cabeça. O pai antes era o provedor, o sabedor de tudo, o que vai resolver tudo. Hoje não é mais assim... Às vezes, o pai está doente, não sabe que doença tem e o filho identifica porque o pai do amigo teve e dá uma força. Aquela relação vertical hoje se horientalizou para a família. A educação seria algo assim: um grupo de pessoas empenhadas no bem estar da família. Isso vai reverter num bem estar da sociedade com grandes olhos para o bem estar do planeta.

RS: Na sua opinião, quais são os maiores desafios que os pais enfrentam hoje?
IT: Primeiro ponto: a falta de conhecimento educativo. Segundo: é que as opções são muitas e os pais estão meio perdidos em qual é o melhor caminho. Terceiro: os filhos não são mais os mesmos. Antigamente, antes da era da internet, de crianças indo cedo para a escola, era fácil passar valores para os filhos porque eles conviviam com as famílias intensamente, sem interferência externa. Hoje, a interferência começa muito cedo com babá, TV, escola... Então, quando a criança começa a entender as coisas, ela já está incorporando junto com valores familiares outros valores. Aí a criança começa a contestar o que os pais fazem...

RS:Quando é que os pais devem impor limites às crianças?
IT: Desde que nascem porque nós precisamos de um limite biológico. O parto é o sinal de que pais não podem aceitar uma criança folgada que queira ficar 10 meses na barriga. E é assim também quando se começa a amamentar. A criança tem que ter ritmo de alimentação e não se alimentar quando quer. Não quer mamar, mas fica usando o seio como chupeta. Isso não pode! Então, tudo tem que ter ritmo. Chama-se ritmo biológico. A partir da compreensão da criança... Nós temos que ver qual competência a criança tem para fazer. Não adianta pedir algo muito elaborado, que ela não tenha idade para fazer. Mas é a partir das coisas simples que ela fizer, isso vai alimentando o ego dela, dando uma auto-estima suficiente de que “eu sou capaz”. Ela vai acreditando e vai crescendo cada vez mais competente. Agora, se nós fazemos por ela, ela aprende a depender, e estamos aleijando essa força da auto-estima que viria desde o comecinho. Ela fica numa espécie de “bolha”, que vai crescendo dentro da própria pessoa e isso muda tudo na vida. Determina se vai ter uma boa auto-estima ou uma auto-estima fraca.

RS: O “não” que vira “sim” prejudica muito as crianças?
IT: Prejudica muito. Muito porque não formamos cidadãos. Então formamos regras sociais à nossa maneira desde que não sejamos pegos. Em casa a mãe diz “não”. Aí a criança não faz nada até que a mãe ou o pai fala “sim” e derruba tudo. É o último dominó que derruba todos os “não” ditos até então. O que criança aprendeu? Existe regra? Existe sim, mas basta insistir que eu consigo. Isto é o grande drama do Brasil: todas as pessoas que furam as regras são as pessoas que uma hora acham que vão conseguir o que querem! Para a criança não tem pequeno ou grande. Nós é que dimensionamos. Quando ela quer uma coisa, quer no seu ser absoluto, pois ela não tem noção de grandeza, nem de responsabilidade. Isso se chama educação: passar esses valores, essas noções, para que criança crie dentro de si aquela condição de saber “isso eu posso fazer, isso eu não devo”.

RS: O que representa a falta de limites para o futuro da criança?
IT: Estraga a vida porque ela não vai conseguir acompanhar tudo o que precisa de limites. Por exemplo: na escola, ela precisa de limites. Quem não tem limites não se adequa à escola. Tem horários, lição de casa, provas. Ela vai querer estudar numa hora que é recreio e na aula vai querer ter recreio? Não tem condições. Na vida é assim! E ela acaba encontrando um jeito porque a criança precisa encontrar o ritmo dela. Isto acaba sendo deixar tudo para última hora porque, na última hora, todo mundo ajuda. E no social, ela vai sempre achar que existe uma lei que vai ajudar os que faltam porque aqueles que cumpriram se ferraram e o que bancou o espertinho e deixou por último, saiu beneficiado. Por isso que essa cultura brasileira interfere na família. Por isso temos que mexer da família para fora. Esses comportamentos que a gente condena são comportamentos que são reforçados fora de casa porque é em casa que aprendemos. Por isso faço tanta questão de dizer que é em casa que temos que educar as crianças.

RS: O amor em excesso pode estragar uma criança?
IT: Não. Existem pais que amam demais os próprios filhos, porém o que estraga são os comportamentos inadequados e não o excesso de amor. Daí mistura os dois juntos e fala que excesso de amor atrapalha. Não é não. Amor precisa existir. As crianças precisam, no início da vida, serem mais importantes que os próprios pais para os pais. Eles mesmos têm que colocar os filhos em primeiro lugar. Se o bebezinho está chorando, tem que ser atendido rápido. Não tem que deixar chorar meia hora - a não ser que seja por outro motivo que posso até explicar depois. Fora isso, o choro de recém nascido é desesperador para a própria criança porque ela não tem noção de tempo e sofre horrores. Parece que mundo vai acabar...  Existe confusão entre a sensação de amor e o comportamento que os pais tomam. O que atrapalha não é o excesso de amor, elas precisam mesmo de amor, mais do que os adultos. Então, fora desse período, precisam aprender que amor tem que ser dividido entre as pessoas e não mais pra um do que pra outro, tem que dividir. O comportamento inadequado é quando nós usamos “em nome do amor” para fazer algo para o filho. No fundo, estamos aleijando a capacidade dele. Esse tipo de excesso faz mal. Em vez de desenvolver, a aleijamos na área que eles têm condições. Por peninha, muitas vezes, porque não se tolera que filho não faça. Se os pais não fizerem, o filho aprende. Não é excesso de amor que deseduca. O que deseduca são os excessos que os pais cometem quando fazem pelo filho o que ele é capaz de fazer. Daí os pais começam a se justificar, a colocar culpa em outra coisa e dizem que ele (o filho) já nasceu assim. Ninguém nasce assim. Nós é que educamos. Todos vão se corrigir quando tomarem consciência do quanto podem mudar. Por que nós ensinamos a nossos filhos que eles estejam sempre certos e os outros errados??? O filho bate com a cabeça na mesa e a mãe diz: “mesa feia!” e bate na mesa. O que a mãe está dizendo é que a mesa está errada e que ela se colocou no caminho da criança que estava inocentemente correndo pelo mundo? Não existe isso. Deve-se dizer: “então filho, tome mais cuidado, e agora chora porque dói mesmo”. Pronto e acabou. Ele nunca mais vai bater a cabeça na mesa. Senão, o colega que é ruim, a babá que não presta, a empregada que é não sei o quê, a escola, o patrão que não serve...

RS: Um filho é diferente do outro?
IT: Graças a Deus são diferentes. Quando o mais velho nasce, todo mundo está olhando para ele. Quando o segundo nasce, tem um dedo enfiando no olho dele. Por mais que pais queiram, nunca os filhos serão iguais. A parceria é desigual. O mais velho manda no mais novo e mais novo dá este poder. O mais velho tem idéias. Se o mais velho sabe fazer ele faz, se o mais novo não sabe, não vai fazer. Erram os pais quando, por exemplo, já na adolescência, o mais velho com 13 quer sair e o menor com 11 não tem com quem ficar. Aí a mãe fala “só sai se levar o menor”. Estraga os dois! Porque o de 11 ainda está na confusão, o de 13 com malícia. O de 11 funciona como o “bobo” da turma e vai levar porrada e o de 13 vai “pagar mico” . O mais velho tem que frenquentar a tuma dele e o menor a dele - que vai se divertir com outros assuntos. O grande segredo é tratar os filhos de jeito diferente. Na vida, a gente aprende com as diferenças, veja este exemplo: faz de conta que eu tenho um cachorro. Eu o agrado e ele olha pra mim e faz tudo pra mim como se eu fosse um rei. Daí eu tenho um gato, também agrado, faço tudo e o gato olha pra mim e diz “eu devo ser o rei”. Então, minha atitude depende da recepção que outro tem. Se um me maltrata porque eu fiz o bem, eu tenho que corrigir? Então, não é como os pais gostariam que fosse: falam uma coisa e querem que todos os filhos respondam igual. Isso não acontece...

RS: É correto premiar o filho quando ele faz algo certo?
IT: O filho merece tem, não merece não tem. Não importa. Cumpriu a tarefa? Tem. Não cumpriu? Não tem. Agora, tarefa não se premia não! Tarefa é obrigação. Porque se a gente premia a tarefa, daqui a pouco ele não faz nada porque não ganha nada... Você pede, ele não faz, e ainda diz “não ganho pra isso”.

RS: Castigo resolve?
IT: Não. Se castigo resolvesse todos os filhos seriam maravilhosos porque eu nunca vi uma criança que não tenha sido castigada. O que educa é corrigir o erro na base da consequência. Todo mundo fala: “errar é humano” ou “errando é que se aprende”. Isso é mentira. É corrigindo o erro que a gente aprende. Se não aprender, tem que aplicar consequências. Mostrar o que ele provocou por não ter feito algo. Então vai corrigir pra não fazer outra vez. Temos uma coisa que odiamos: corrupção, desvio de verbas... coisas que horrorizam, mas onde isso começou? Dentro de casa! Quando o filho de 6 anos pega dinheiro pra comprar lanche e vai lá e compra figurinha... Chega em casa e os pais ainda ajudam a colar no álbum! O que aconteceu? Os pais endossaram o desvio de verbas! Ele usou o que não podia. O dinheiro era para o lanche e não pra ele gastar com figurinha...

RS: O que pais devem fazer nessa hora?
IT: Devem dizer: “olha, você errou filho e você vai, durante uma semana, levar lanche de casa. Na próxima semana, a gente tenta outra vez. Se você acertar, aí vai ganhar dinheiro pro lanche, se outra vez gastar com o que não deve, vai ficar mais uma semana levando lanche de casa e ponto”. Ele aprende. Porque, caso contrário, depois sai de carro para ir até a padaria e dá volta pela cidade. Abusa do que não é dele. E quem ensinou??? Não adianta só o pai falar. Tem que ensinar. Filho faz o que aprendeu. E como aprendeu? Vendo!!! A transgressão é fácil. O “jeitinho” que se conseguem as coisas, a criança vê. A criança faz o que vê. Se o pai vai ultrapassar alguém no trânsito, ofende e xinga, pode estar certo de que a criança ali atrás já está com ódio do outro. É isso que ele está ensinando. Daí não adianta dizer que não pode xingar... Acha que por falar corrigiu o erro? Ele que não fale palavrão, ele que mostre o bom exemplo!

RS: Gritar resolve?
IT: Se gritar resolvesse, crianças seriam ótimas. Não tem mãe que não grite e nada irrita mais um filho do que uma mãe gritona! O pai é um trovão, filho não aguenta! Fale só uma vez. Se entendeu, entendeu. Se não entendeu, vai sofrer as consequências de não ter entendido para aprender a entender. Por exemplo, vou chamar você pra jantar e quero que você desça. Se não vier, vou fechar tudo e quando você quiser você vem, esquenta sua comida e deixa a comida em ordem, como encontrou. Caso contrário, não vai dormir. Aí ele (o filho) vem depois pra testar... Daí a mãe acaba fazendo miojo! Pra que fazer miojo???? Ele que se vire, ou então vai dormir sem comer. Se ele comeu, deixou bagunça na cozinha e foi dormir acorde ele com uma gotinha de água na testa e diga que só vai dormir depois que arrumar a bagunça! E deixe sem dormir uma noite. Isso não é castigo, é consequência. Se ele arrumar, pode dormir. Se não arrumar, não pode. Castigo é quando a gente dá uma surra que não tem nada a ver com arrumar ou não a cozinha.

RS: Tem que ter regras?
IT: Sim. Vai ter hora pra comer e se não veio fica sem comer. Ninguém morre por isso. O que eu acho é que isso não é excesso de amor, é moleza de pai e mãe. Seja firme uma vez e acabou. Ninguém gosta de dormir com fome!

RS: Quais são seus conselhos para prevenir o uso de drogas?
IT: A adolescência é um segundo parto. É nascer da família de criança para dar passos sozinho. Dentro da família, existe a ordem dos pais, ele recebe um sobrenome. Na adolescência, quer o nome dele, o apelido, vai atrás de identidade própria. E neste caminho, faz coisas boas e ruins. O acompanhamento dos pais vai selecionar o que é bom e o que não é bom. O que ele faz na rua, traz pra casa. Um bom exemplo é comparar com o piolho. Por melhor lugar que filho frequente, ele pode voltar com piolho. E não é porque pegou num bom lugar que vamos aceitar ter piolho em casa. Piolho significa um comportamento que eu não aceito e eu combato em casa! Se chega ele diferente e eu fico quieto, eu estou autorizando que ele traga para casa coisas erradas. Antigamente, achava-se que quem usava drogas tinha problemas. Hoje não é assim. O adolescente não tem problema, tem é curiosidade. Experimenta a droga. E a droga se experimentada, já altera a química na primeira experimentação. Você pode querer fazer outra vez se for gostoso porque cérebro está acostumado a repetir o que é gostoso. Então tem pessoas que tem que saber que droga é gostosa, mas não é para experimentar nem pra usar! Mas aí ele experimenta e diz “a vida é minha”. A vida não é dele não! Ele ainda está na fase que depende dos pais! Os pais assinam coisas. Se vier com este comportamento, os pais têm que combater. Pais sendo frouxos, vão piorar a situação. Se a gente não sabe o que fazer, então aprende uma coisa: se não sabe, vamos estudar para ver o que é! Temos que ter a posição de aprender sempre. Pais têm obrigação de, se não souber, partir para saber.

RS: Como combater as drogas?
IT: Basta não concordar, não endossar e não permitir. Não se usa drogas, assim como não se mata. Se você usar, vamos tomar medidas. Primeiro, vamos cortar suas saídas. Se ainda assim continuar, vamos cortar outras coisas. Aprender com a conseqüência desde pequeno. Você (filho) está decidindo que não pode sair porque abusou da sua liberdade. Só que tem que manter. Não pode abrir brecha. Não vai sair e ponto. Ou se estabelece limites fundamentais ou este país não vai mudar nunca!

RS: Tem pai que diz que vai deixar experimentar em casa, até álcool...
IT: É, dependendo da dose... quando altera o corpo, aí faz mal. A pessoa que bebeu uma vez... bebida é depressiva, deprime o controlador das vontades. A pessoa não consegue controlar a vontade de beber e passa do ponto. Tem pessoas que não podem beber porque passam do ponto. As que passam do ponto não podem beber. Temos que aprender a beber e tem que ser pouco. Não dá pra comparar bebida com droga. Mas o uso inadequado ou exagerado da bebida é droga sim. Quem bebe e dirige provoca problemas: se não morrer vai matar! Quanto mais beber, mais chance de acontecer tragédia. Pode ser fatal. As pessoas têm que se prevenir. Há 27 anos fui ao Japão com meus filhos e lá percebi que à noite tinha os japoneses que ficavam na cidade trabalhando. Eles saíam para beber e sempre tinha um bêbado e, o outro, quietinho esperando. Era um trato. No dia seguinte, era o outro que podia beber. Trouxe essa idéia para o Brasil: um não pode beber - é o que vai dirigir e que vai tomar conta dos que bebem! Houve época que morriam adolescentes como formigas nas estradas...

RS: Como evitar “más companhias”?
IT: Más companhias é como a história da mesa. O filho faz parte do grupo, é o “comportamento piolho”. Se eu não aceito, não permito, não entra em casa. Sair com essa turma? Não vai sair!!! Tem que ser desde o começo. Para os pais terem autoridade quando falam. É preciso nunca ceder quando uma decisão tiver sido tomada.

RS: É preciso estar sempre alerta?
IT: Sim. Basta acompanhar. O maior crime é dar celular pro filho ir para balada e daí filho não atende o telefone... Os pais ficam preocupados. Daí ele aparece de madrugada e o pai diz: “ai meu filho, ainda bem que você está vivo”. Que nada!!! Ele merecia uma “porrada”! Como, vai judiar do pai por não atender o telefone?? Diga: “você não vai mais sair porque vai ficar sem telefone. Vai ficar aí porque não é justo o que fez com a gente: não nos atendeu”. E não deixa sair uma semana. Como a idéia não é castigar, mas que ele aprenda, então: “Você quer sair? Vai sair, mas com uma condição: vai sair sem celular e vai ligar pra casa de uma em uma hora. Aí pode sair.” Porque em uma hora, qualquer droga que se use, você percebe por telefone. Por isso, os pais têm que estar atualizados. É mais importante buscar o filho na festa do que levar. Buscar dá trabalho, pegar o filho de fogo, é complicado. São as comodidades dos pais que facilitam vida do filho para que usem drogas. Há 18 anos escrevo livros para levar essas dicas aos pais. Um pai pode mudar o rumo dos filhos. Quem tem que orientar os filhos são os pais. A vida toda é um parto. São vários nascimentos ao longo da vida. Quando um parto vai bem, os outros também vão bem. O verdadeiro parto não é biológico: é o da independência. Começa quando se aprende a andar. Nesta fase, vai cair mesmo. Um parto bem feito é reconhecimento da capacidade. Mais tarde, vai ter que enfrentar o mundo sozinho. Pai não pode trazer nada pronto.

RS: Como o casal deve agir com os filhos?
IT: Acho que a mãe deveria trabalhar um pouco mais este lado porque ela não facilita. Ela está lá, cuidando dos filhos e diz pro marido “bem, me ajuda????” O quê??? Que ajuda nada!!!! Ele tem a parte dele na educação dos filhos. Isso não é ajuda para mulher. É obrigação de pai. Mas tem que ensinar o homem a fazer porque cérebro masculino é diferente do feminino. Com 3 filhos o pai fica louco, manda todo mundo ficar quieto, não consegue acompanhar. Homem é assim. Já a mulher consegue olhar os 3 fazendo coisas diferentes ao mesmo tempo e ainda falar no celular, comandando tudo, prestando atenção em tudo. Então é mesmo diferente. Por isso acho que para o pai é difícil chegar ao mesmo nível que a mulher que é mãe. Ele tem que ser pai, tem que saber ficar sozinho com os filhos pequenos. Mas hoje isso já está mudando. Uma coisa que antes nem se pensava era ver um pai trocar fralda. 50 anos atrás, pai só conversava com os filhos quando eles já falavam. Antigamente então, só quando crescia. Agora o pai já entra na sala de parto, corta cordão umbilical... Olha que evolução!!!!


Entrevista de Içami Tiba, psiquiatra e educador, concedida à repórter Rosângela Santos para o Papo de Mãe.

Fonte: http://www.papodemae.com.br/2009/10/oi-gente-o-tema-desta-semana-e-limites.html